ARTIGOS

O que é maior: seu desejo ou o mundo?

Autor: Cláudio de Castro - Data: 26/01/2011

Nos últimos dias temos sido assolados com diversas notícias sobre catástrofes ambientais. Excesso de água em vários locais na região Sudeste, tendo como contraponto notícias sobre secas vorazes, que estão consumindo plantações e animais na região Sul. Soterramentos, quedas de barreiras, obstrução de estradas e mortes, muitas mortes. Parafraseando um ex-presidente, uma sucessão de catástrofes como “nunca antes na história desse país”.

Há aqueles que associam tais fenômenos a um contexto religioso do fim dos tempos. O capítulo 21, do Livro de Lucas, bem como o capítulo 24, do Livro de Mateus, conta uma passagem quando Jesus está no Monte das Oliveiras, ensinando a seus discípulos sobre os sinais do fim do mundo. Lucas descreve assim as palavras de Jesus: “haverá em vários lugares, grandes terremotos, e fomes, e pestilências; haverá também coisas espantosas e grandes sinais do céu”. O livro de Mateus acrescenta que, neste tempo, “haverá grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco haverá jamais”.
 
Em outra seara estão os apocalípticos do clima, que anunciam o aquecimento global como causador das alterações climáticas que estamos assistindo. Argumentam que a queima de combustíveis fósseis e a destruição das florestas e outras formas de vegetação são os maiores vilões, pois causam um aumento considerável nas temperaturas, o que resulta em mudanças nos padrões do clima em nível mundial.
 
Independente das posições religiosas ou científicas parece reinar certo anestesiamento coletivo para a relação entre os fenômenos climáticos que temos assistido e o comportamento do homem em relação ao meio ambiente. E isto ocorre mesmo quando essa relação é evidente, afinal somos nós quem estamos queimando combustíveis fósseis e derrubando as florestas.
 
Vejamos os recentes e dramáticos acontecimentos na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Técnicos estão argumentando que as construções em locais de intensa declividade foi o fator determinante da catástrofe. Outros sustentam que a razão principal está na remoção indiscriminada da cobertura vegetal, que diminuiu a proteção do solo, favorecendo as infiltrações e os desabamentos.
 
Ora, um olhar leigo sobre a paisagem urbana de Belo Horizonte vai demonstrar que a cidade está cercada de colinas e vales. Alguns bairros da denominada zona Sul estão na encosta da Serra do Curral, com altitudes que ultrapassam aos 1.000 metros. Enquanto isso, em outros bairros na zona Norte, encontram-se altitudes que variam de 60 a 800 metros.
 
Assim, como explicar que se tenha permitido a ocupação da área urbana em Belo Horizonte? Afinal, todas as encostas com declividade superior a 45 graus são consideradas áreas de preservação permanente, gozando de proteção legal. A supressão de vegetação nessas áreas somente se autoriza em casos de utilidade pública ou de interesse social, se não houver alternativa técnica ou locacional.
 
Os exemplos de áreas de preservação permanente estão nos bairros Mangabeiras, Buritis, Belvedere, Sion, Anchieta, Santo Antônio, todos na zona Sul. Mas a mesma situação também se verifica nos bairros Padre Eustáquio, Cidade Nova, Sagrada Família, entre outros.
 
É possível que problemas semelhantes àqueles ocorridos no Rio de Janeiro não tenham ocorrido em Belo Horizonte em razão de particularidades da bacia hidrográfica. Ou talvez porque, neste ano, as chuvas tenham sido menos intensas na capital mineira, em comparação com as chuvas torrenciais que desaguaram no Rio.
 
Há quem acredite na proximidade do fim dos tempos. Será? Certo é que não podemos mais continuar entendendo que o problema é do vizinho. Este é um problema de todos nós. Assim como depende de cada um a mudança de postura. Mesmo que isso possa, sobremaneira, afetar o nosso modo de viver, precisamos resgatar o elo perdido do homem com a natureza.

Catástrofes marcam a evolução da natureza. Mas a história mostra que tais acontecimentos são mais impiedosos quando tentamos fazer com que todos os nossos desejos caibam dentro do mundo.

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